sábado, 17 de maio de 2025

A CESSAÇÃO DOS DONS EXTRAORINÁRIOS


A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso.

1Co 12:8

DEFINIÇÃO DE CESSACIONISMO

O cessacionismo define-se como a doutrina que, pressupondo a suficiência das Escrituras, nega que os dons extraordinários sejam normativos na Igreja. Em virtude do conhecimento revelacional de Deus ao seu povo, estes dons tiveram o propósito de capacitar os homens na entrega, confirmação e registro da revelação divina. Isto porque nenhuma religião pode florescer sem a ideia de revelação, tendo em vista que a piedade é o relacionamento dos homens com Deus, o conhecimento de Dele torna-se necessário para que todos os aspectos da vida devota e piedosa sejam cultivados e desenvolvidos. Perceba que há revelação como consequência de nossa necessidade de se relacionar com Deus, isto certamente foi impresso pelo próprio Criador, como diz Turretini, todas as nações (mesmo as bárbaras) concordam em que é bom para o homem buscar alguma sabedoria celestial, além daquela que a razão chama de o guia da vida. Muitos ateus sustentam que essa necessidade da religião se deu por conta da manipulação de homens primevos sobre os mais fracos para a manutenção de seu poder, Turretini afirma, entretanto, que ainda que seja verdade que homens astuciosos têm inventado muitas coisas na religião, com o fim de inspirar reverência no povo comum, e com isso manter sua mente mais obediente, jamais teriam atingido seu propósito a não ser que já existisse, na mente humana, um senso inerente de sua própria ignorância e impotência. João Calvino diz o mesmo, leia-se:

“Sem dúvida, confesso que, a fim de manterem o espírito mais obediente a si, homens astutos têm inventado muita coisa em matéria de religião, para com isso infundirem reverência às pessoas simples e causar-lhes terror. Isso, no entanto, em parte alguma teriam conseguido se a mente humana já não tivesse sido imbuída dessa firme convicção acerca de Deus, da qual, como de uma semente, emerge a propensão para a religião.”

O relacionamento entre o homem e Deus pressupõe que o aquele o conheça, mas tal é o abismo entre os dois, como a finitude e corruptibilidade da criatura, que nem mesmo a própria criação inteira nos garante uma revelação assertiva de Deus, pelo menos, não de modo salvífico. Por esta razão, os divinos de Westminster iniciam a confissão dizendo que

“Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda.”

O ponto de partida em que o cessacionismo se sustenta é a finalidade divina de revela-se ao seu povo, esta é a essência da edificação do corpo de Cristo, o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus (Ef 4.12-13). A partir daqui a revelação pode ser vista de duplo modo: (1) geral ou natural, aquela que encontramos na natureza, cujos atributos invisíveis de Deus são percebidos; (2) especial ou sobrenatural, aquela que no tempo e nas circunstâncias por Ele determinadas, manifestou-se de modo extraordinário, específico e redentivo ao seu povo. Assim, Turretini conclui dizendo que “era necessário que a imperfeição da primeira revelação (feita inútil e insuficiente pelo pecado) fosse suprido por outra mais clara (não só quanto ao grau, mas também quanto à espécie), não somente para que Deus usasse mestres mudos, mas também para que sua santa voz declarasse a excelência de seus atributos e abrisse o mistério de sua vontade para nossa salvação”. Esqueçamos, portanto a primeira revelação, aquela geral e natural que, a todos cercam com claras evidências dos atributos criativo, providencial e governador de Deus sobre todas as coisas, e foquemos nesta revelação específica, sobrenatural e extraordinária.

Após isto, o registro desta revelação aponta as modalidades em que Deus se revelou, Paulo diz que “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho” (Hb 1.1-2), pelo que vemos uma economia, uma administração divina em seu modo de revelar-se e falar com o seu povo. Logo depois exaltar o Filho de Deus, nos exorta sobre o perigo da negligência àquilo que nos fora anunciado inicialmente pelo Senhor, confirmado pelos que a ouviram e tendo o testemunho divino por sinais, prodígios e vários milagres (Hb 2.3-4). O conceito relacional entre Deus e o homem pode ser visto de dois ângulos: (1) de Deus para o homem, temos a revelação; (2) do homem para Deus, temos a obediência, o dever que Ele requer à sua vontade revelada (CMW, 91). A síntese da revelação bíblica consiste nisto: o registro daquilo que Deus quis revelar de si, a confirmação desta revelação por intermédio de sinais, a resposta daqueles que receberam o conhecimento de Deus e a interação divina com estas respostas. Entretanto, vemos que Deus designou ofícios para que esta revelação fosse transmitida ao povo, designou aos que receberam esta responsabilidade autoridade divina como também, por inspiração do Espírito Santo, registraram àquilo que é suficiente para a salvação, por isto, somos edificados sobre o fundamento[1] dos apóstolos e profetas, sendo Cristo Jesus, a pedra angular (Ef 2.20).

ESPECIFICIDADE DA REVELAÇÃO ESPECÍFICA

O jogo de palavras é proposital. Podemos dizer que se trata de uma definição mais precisa da revelação específica de Deus aos homens. Pontuemos, inicialmente:

O homem e sua natureza finita. A primeira questão a ser considerada introdutoriamente é que o homem não foi criado com uma perfeição intelectual tal como o próprio Deus. Quando estudamos teontologia (doutrina do Ser de Deus) vemos que o conhecimento de Deus é arquetípico[2], intuitivo[3], imediato e simultâneo[4].  O homem não, o homem conhece as coisas não como Criador, mas como parte da criação, não como um arquiteto que planeja o imóvel, mas como o comprador. Deus conhece como causa primeira, isto é, como aquele que dá existência e definição às coisas. O homem, sendo causa segunda, conhece apenas a partir do que já foi criado. Portanto, é impossível (seja na condição de estado original, seja após a queda, seja regenerado ou glorificado) o conhecimento perfeito de Deus em função ontológica e metafísica, pois Deus é infinito, a mente humana, é finita (Jó 7.17; 14.1-2; Sl 8.4-5; 144.3; Pv 24.32). Deus conheci a si mesmo em si mesmo, nós o conhecimento por aquilo que Ele revela, dentro das limitações de nosso próprio intelecto (seja ele em estado original, corrompido, regenerado ou glorificado). Fica claro a partir daqui nosso próximo ponto.

A incompreensibilidade de Deus. Afinal, se Deus é infinito em seu ser, perfeito em seu operar, fora do tempo e do espaço, sua transcendência precisa ser acentuadamente mencionada. Pois é a doutrina que fala que Deus está assentado nas alturas, no seu trono, sendo um Deus separado da sua criação e independente dela[5]. Deus não está preso às mesmas categorias que os seres humanos, isto é, tempo e espaço, por isso não deve ser medido por elas[6]. A escolástica faz uma separação de ordem entre Deus e suas criaturas[7]. Por esta razão lemos na Escritura "Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Pois, quem conheceu a mente do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro?" (Rm 11.33-34; Cf. Jó 26.14; 36.26; 37.5; Is 55.8,9).

A queda do homem de seu estado original. Já não bastasse a limitação em que o homem estava naturalmente sujeito, por ser criatura, mais limitado ainda tornou-se ao cair de seu estado original. O homem em estado de queda não quer conhecer[8] a Deus, como diz o apóstolo Paulo, “por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável” (Rm 1.28) e isto é mais claro ainda nos recortes que Paulo se usa do Antigo Testamento para falar da condição deplorável do ser humano (Rm 3.10-18)[9]. Paulo associa a prática do pecado à ignorância pela dureza do coração (Ef 4.17-19) e logo depois lemos “mas não foi assim que aprendestes a Cristo” (v.20) e ele explica este aprendizado em termos da regeneração (vos despojeis do velho homem, v.22).

O caráter redentivo da Revelação. O catecismo maior e breve de Westminster afirma isso ao dizer que o fim principal e supremo do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre (Ap 4.11; Rm 11.36; 1Co 10.31; Sl 73.24-28; Jo 17.21-24). Qual o problema? O pecado. A vontade de Deus fora quebrada, as leis são desobedecidas e o diagnóstico apostólico do homem natural é claro: “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3.11), são “entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza de seu coração” (Ef 4.18), trata do homem que “não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhes são loucura e não pode entendê-las” (1Co 2.14). Portanto, Cristo é a solução para esse problema, sendo inocente, Ele se torna pecado por nós, a justiça dele nos é imputada pela fé, somos santificados por meio de sua Palavra e esperamos o seu retorno para a nossa glorificação. Mais que isso, Cristo nos torna participante de seu corpo, distribui dons para seus membros, aperfeiçoa e edifica organicamente a sua Igreja “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.13). E quem está por trás de toda essa obra? Quem aplica a obra de Cristo em nosso coração? Quem eficazmente rompe as barreiras da incredulidade, da dureza e da resistência depravada do homem, inclinando sua mente e sua vontade ao Evangelho de Cristo? Aos que leem a Bíblia, não foi preciso pensar muito para responder que é o Espírito Santo. Essa é a promessa da dispensação da graça administrada por Cristo, “porei dentro de vós o meu Espírito, e fareis que andeis em meus estatutos, e guardeis as minhas ordenanças, e as observeis” (Ez 36.26), pois tendo Deus estabelecido a circuncisão como sinal da aliança na antiga dispensação, garantiu “o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração” (Dt 30.6) e isto se confirma com o Apóstolo Paulo ao escrever que hoje, “fostes circuncidado não feita por mãos no despojar do corpo da carne, a saber, a circuncisão de Cristo” (Cl 2.11) e em outro lugar diz que “ a circuncisão somos nós, que servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne” (Fp 3.3). O Espírito Santo é a garantia de que Cristo está com seu povo (Mt 28.19,20; At 3.21; Mt 18.19, 20; Jo 14. 16-17; 2Co 6.16; 1Co 3.16), John Owen afirma que Ele garantiu a seus discípulos que a sua presença com eles pelo seu Espírito era melhor do que a sua presença física[10]. Portanto, não há cristianismo autêntico sem uma experiência genuína com o Espírito Santo, não existe cristão sem conversão, não existe crentes sem fé e arrependimento como também não se pode entender a Sagrada Escritura em sua natureza mais íntima e pactual sem a operação eficaz do Espírito.

Após essas pontuações, devemos considerar melhor o que é revelação. O teólogo reformado Gerard van Groningen explica em seu livro A revelação messiânica no Antigo Testamento que revelação sugere tirar o véu, abrir, tornar acessível o que, de outra forma, permaneceria desconhecido, indicando atividade intencional, inteligível e teleológica[11]. Em sua outra obra, O progresso da revelação no Antigo Testamento, ele esclarece dizendo que a revelação acontecia quando havia uma manifestação do que estava na mente do nosso Deus trino. Revelar quer dizer descobrir o que está escondido. É abrir a mente e o coração e expressar o que está neles. Esse conteúdo expressado é revelação quando não era conhecido antes que a abertura ou atividade reveladora acontecesse[12]. Com isto, van Groningen sumariza a revelação em elementos distintos: a palavra de Deus, sua ação, a resposta humana (seja em palavra ou ação), a interpretação da relevância e efeito desta resposta.

O teólogo brasileiro Paulo Brasil afirma que cada ato revelacional implica em um ato histórico, deixemo-lo falar e já introduzir a distinção entre a revelação objetiva e subjetiva que pretendemos usá-la mais adiante:

Revelação objetiva são os atos históricos de Deus, manifestados na própria história. Isto é, cada ato revelacional implica em um ato histórico. Exemplo: Jesus veio a este mundo. Isso é um ato histórico. Esta é uma revelação objetiva. Revelação subjetiva (Iluminação) é a revelação histórico-objetiva que é trazida ao entendimento do indivíduo, a regeneração, conversão. O que permanece hoje é a iluminação, pois a revelação objetiva cessou, pois não existe mais revelação histórica. Ela se encerrou com o Cânon. O que temos hoje é a iluminação que é trazida ao homem por meio da pregação histórico-objetiva de Deus que continua sendo proclamada e salvando o povo na história. Como Deus fez no Antigo Testamento, fez também no Novo Testamento e durante toda a história. O Velho Testamento junto com seus atos históricos não apenas revelava Deus historicamente (objetivamente), mas revelava Deus subjetivamente a um povo que Ele mesmo estava salvando. Paralela à idéia da revelação, está a idéia de conversão e salvação — Deus se revelava para redimir.[13] [grifo meu]

Isto demonstra um elemento importante do período revelacional: tanto o falar e o agir de Deus tal como o falar e o agir de seu povo em resposta à esta palavra constituem elemento da revelação divina. E nisto podemos ver que Moisés, ao iniciar o livro de Deuteronômio, recapitula tudo aquilo que foi ensinado ao povo iniciando seu discurso com a palavra de Deus (Dt 1.6), narrando os eventos decorridos da peregrinação do povo como parte da revelação divina e, portanto, do conhecimento de Deus. Paulo reforça isto ao dizer que “estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa” (1Co 10.11).

Outra coisa importante para a compreensão deste relacionamento entre Deus e o homem está no conceito de Aliança. Há um relacionamento pactual entre Deus e o homem, por esta razão, enxerga-se a dinâmica entre a palavra e ação de Deus concorrendo com a resposta humana.[14] Millard Erikson confirma o aspecto pessoal da revelação específica. Um Deus pessoal se apresenta a pessoas, e isso pode ser visto de várias maneiras. Deus se revela informando seu nome. Nada é mais pessoal do que um nome. Quando Moisés perguntou o que deveria dizer ao povo de Israel quando lhe perguntasse quem o enviara, Javé respondeu revelando seu nome: "EU SOU O QUE SOU [OU EU SEREI O QUE SEREI]" (Êx 3.14). Além disso, Deus firmou alianças pessoais com indivíduos (Noé, Abraão) e com a nação de Israel. E observe-se a bênção que Arão e seus filhos deveriam pronunciar ao povo: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o Senhor levante sobre ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6.24-26)[15]. Logo, o conhecimento de Deus para a salvação só faz sentido dentro de uma hermenêutica pactual, pois como diz Geerhardus Vos, “conhecer” pode significar “amar”, “separar em amor” no idioma bíblico. Porque Deus deseja ser conhecido dessa maneira, ele fez que sua revelação acontecesse no meio da vida histórica de um povo. O ambiente da revelação não é uma escola, mas um “pacto”. Falar sobre a revelação como uma “educação” para a humanidade é uma maneira racionalista e não escriturística de falar. Tudo o que Deus desvendou de si mesmo veio em resposta às necessidades religiosas práticas de seu povo à medida que essas emergiam no curso da História[16].

Finalmente, há quatro características importantes a destacar da revelação, antes de encerrarmos esse tópico: o caráter orgânico, progressivo, histórico e adaptável.

O caráter progressivo da revelação. A revelação não se deu em um instante, ela acompanha o desenvolvimento da redenção na história e, nas palavras de Vos, é intérprete da redenção[17]. Esse caráter progressivo da atividade reveladora de Deus é a base para discernirmos se um dado profeta falou verdadeiramente as palavras de Deus[18]. A revelação confirma ou amplia-se com o desenvolvimento da redenção, mas nunca pode se contradizer. Por esta razão, os falsos profetas podem promover atos idênticos ou maiores, mas se a palavra dita não condiz com a revelação divina, os atos não procedem de Deus.

O caráter histórico da revelação. Esta progressão orgânica da revelação se dá no tempo. Deus não revelou Sua vontade de maneira abstrata ou filosófica, mas dentro da realidade concreta da história humana. A revelação de Deus vem à humanidade de acordo com o processo histórico, de modo que homens e mulheres possam compreender e aplicar a mensagem duradoura das relações pactuais ao tempo em que vivem[19].

O caráter orgânico da revelação. Há uma conexão de toda a Escritura, pois ela não foi elaborada em um instante, mas acompanhou todos os eventos da providência divina que, suficientemente, nos forneceu material para, através daquilo que foi registrado nas Sagradas Escrituras, pudéssemos aprender a vontade de Deus. Portanto, a mensagem inteira foi dada, nas palavras de Groningen, em forma embrionária[20], no sentido de que se desenvolve de forma unificada e interdependente, como um organismo vivo. Essa forma orgânica da revelação, somado ao fato que ela tem um caráter redentivo e debaixo de um pacto entre Deus e o homem, implica em uma unidade que reflete o plano redentor de Deus, reforçando a ideia de que toda a Bíblia é testemunha da mesma mensagem de salvação, mesmo que suas partes sejam reveladas gradualmente.

A adaptabilidade da revelação. Dado as administrações do pacto, a revelação se torna adaptável ao período, isto é, não somente as pessoas podiam aplicar a revelação à sua própria vida, mas a revelação também foi dada de tal modo que se constituía em força integral, controladora e plasmadora nas circunstâncias em que os recipientes dessa revelação viviam[21].

Isso nos dá uma noção panorâmica de que revelação é aquele conhecimento pactual que Deus fornece ao seu povo e que consiste naquelas modalidades, períodos e maneiras que Deus se comunicava e manifestava a sua vontade objetivamente de modo infalível, inerrante e autoritativo tanto nas palavras, como nos eventos, como também na significação de ambas as coisas em sua gradual progressão, tendo em vista a redenção dos eleitos, sua manutenção na fé e na santificação para a glória de Deus[22].

Não é imprudente inferir com base em todas estas evidência que a revelação possui uma coerência interna e forte objetividade, não descentralizada à interesses pessoais, mas com uma finalidade divina específica com frutos redentivos que, tendo sido dado aos profetas e apóstolos e, sendo registrado por uma inspiração divina que não só torna as Escrituras infalível como autoritativa à Igreja, tem um princípio e um fim ordenado ao verdadeiro conhecimento de Deus e a piedade, não sendo, portanto, contínua. A revelação como instrumento redentivo está completa, pelo que nos resta é sua proclamação, não adição.

O DESENVOLVIMENTO DA REVELAÇÃO

A revelação divina consiste em duas partes essenciais: a lei de Deus e seu evangelho. Essas partes não são antagônicas, mas são aspectos em que a revelação se apresenta a nós, lemos o apóstolo Paulo dizer que “a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo” (Gl 3.24) e em outro lugar afirma que “o fim da Lei é Cristo, para a justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Elas não são sucessivas, porém simultâneas, isto é, Cristo estava presente no tempo em que a Lei era tutora, “porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo” (Cl 2.17), isto mostra que Cristo e Sua graça estavam presentes já no tempo da Lei, e que a Lei nunca foi um fim em si mesma. Da mesma forma que a Lei nos é presente ainda hoje para revelar a nós o padrão que Deus requer daqueles que crêem em Cristo para a sua salvação. Se há Lei sem Evangelho, temos apenas condenação; o Evangelho sem Lei resulta em graça sem necessidade de arrependimento. Por esta razão, o desenvolvimento da revelação é embrionário, pois embora o aspecto redentivo tenha sido um pouco obscurecido em sombras e tipos na antiga administração do pacto, a redenção estava presente ali e Deus a administrava conforme o seu beneplácito. Na antiga administração da graça, em síntese, vemos de modo progressivo:

(1)   o estabelecimento do pacto de Deus com seu povo, com o registro da vontade preceptiva de Dele na Lei (Gn 17.7; Ex 19.5-6; Dt 4.13; 5.1-3; 29.1; Sl 147.19-20; Rm 3.2; Hb 8.6; Ne 9.13-14);

(2)   a resposta do povo à Deus, ora obedecendo ora desobedecendo esta vontade divina, negligenciando-a e, por vezes, corrompendo-a (Dt 6.4-9; Js 24.14-22; Jz 2.11-17; 1Sm 8.7-8; 2Rs 17.7-23; Is 1.2-4; Jr 7.23-26; Ez 20.5-13; Sl 106.6-39);

(3)   a promessa divina de juízo pela desobediência, como a garantia de redenção de seu povo, incluindo os gentios (Lv 26.14-46; Dt 28.15-68; Is 10.20-23; Is 11.10-12; Jr 31.31-34; Ez 36.22-28; Am 9.11-12; Ml 1.11; Lc 2.32; Ef 2.11-13).

Este triplo aspecto da antiga dispensação da graça envolvia três ofícios que se concretizará de modo perfeito na pessoa de Cristo: real, sacerdotal e profético (Zc 6.13; Sl 110.1-4; At 3.22; Hb 5.5-6; Ap 19.16; Lc 4.18-21). No ofício real, Davi e seus descendentes são chamados para o cuidado do povo de Deus, como o dever de zelar e fazer a Lei de Deus ser ouvida e obedecida (2Sm 7.12-16; Sl 72.1-4; 78.70-72; 1Rs 2.3-4; 2Cr 34.29-33; Dt 17.18-20; Jr 23.5-6). No ofício sacerdotal, as imperfeições da realeza e seus súditos, são compensados pelos sacrifícios e o culto a Deus, onde não somente têm seus pecados expiados, como são ensinados a obedecerem a Lei, isto é, os preceitos divinos são transmitidos ao povo, os levitas aqui estão responsáveis pelo culto (Lv 4.20; 16.6-10; Nm 3.5-10; 2Cr 17.7-9; 30.16-22; Ml 2.7; Ed 7.10; Dt 33.10; Ne 8.7-8; Hb 10.1-4). O ofício profético está estritamente ligado à Palavra de Deus, algo que é análogo à função sacerdotal, porém com elevação e autoridade, visto que ela procede diretamente de Deus, não apenas em seu conteúdo, mas no modo de transmiti-la (Dt 18.15-18; Jr 1.9; 26.2; Ez 3.4; Am 3.7-8; Is 6.1-8; 1Rs 17.1; Zc 7.12; 2Pe 1.21). Na plenitude dos tempos, estes ofícios se tornam perfeitos na pessoa de Cristo, sendo Ele o Leão da Tribo de Judá, que nada deixou fora de seu domínio (Hb 2.8), o tal sumo sacerdote que se assentou à destra do trono da Majestade nos céus (Hb 8.1) e, consequentemente, o único meio pelo qual Deus fala hoje ao seu povo (Hb 1.2). Devemos, no entanto, considerar o ofício profético no desenvolvimento progressivo da revelação até Cristo, sua relação com o ofício apostólico no Novo Testamento após a assunção de Cristo, e sua presença provisória no início da Igreja (esta última é o problema que promove as mais complexas divergências entre reformados e carismáticos).

O ofício profético no Antigo Testamento

A revelação teve os seus agentes na história da salvação, e os profetas foram os que Deus vocacionou e separou para falar aquilo que Ele os ordenara. Nas Escrituras, Abraão foi o primeiro a ser chamado de profeta[23], quando Abimeleque, após ser advertido que Sara era sua esposa, é ordenado pelo Senhor há restituí-la a seu marido; é importante notar que o conceito aqui atribuído a Abraão é associado à atividade intercessória, pois disse Deus “ele é profeta e intercederá por ti” (Gn 20.7). A associação de profeta com o verbo interceder é interessante e já nos informa, no início da revelação bíblica, o caráter de mediação que este ofício desenvolverá na figura de Moisés e no clímax da monarquia de Israel. Embora o termo hebraico פָּלַל em seu sentido mais simples significa julgar (Genesius dirá que sua raiz significa rolar, revolver), o tronco verbal hitpael considera a ação do verbo como intermediária entre dois polos, por esta razão, e.g. lemos que יִּתְפַּלֵּ֥ל אַבְרָהָ֖ם אֶל  אֱלֹהִ֑ים וַיִּרְפָּ֨א אֱלֹהִ֜ים אֶת ־אֲבִימֶ֧לֶךְ (Gn 20.17) — e, orando Abraão, sarou Deus Abimeleque — e em Moisés, a situação se repete quando ele intercede pelo povo de Israel, וַיִּתְפַּלֵּ֤ל מֹשֶׁה֙ אֶל־יְהוָ֔ה וַתִּשְׁקַ֖ע הָאֵֽשׁ (Nm 11.2) — então Moisés intercedeu diante do SENHOR, e o fogo se apagou — e quando Deus secou a mão de Jeroboão, ele implora ao profeta, הִתְפַּלֵּ֣ל בַּעֲדִ֔י (1Rs 13.6) — ora em meu favor. Logo a ideia inicial de profeta na Bíblia está associada ao conceito de intercessor (cf. Êx 8.8; 8.28; 9.28; 10.17; Nm 21.7; 1Sm 12.19), mas ainda no patriarca, vemos como estes vocacionados por Deus era de tal forma próximos de Deus que lemos o Senhor afirmar “ocultarei a Abraão o que estou para fazer...?” (Gn 18.17). E a razão empregada por Deus para revelar a sua obra à Abraão repousa no pacto que havia feito ele (v.18) e anuncia o seu juízo sobre Sodoma e Gomorra (v.20-21) e quando lemos o autor da carta aos Hebreus, lemos que “Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança” (Hb 11.8). O propósito de Deus se revelar a Abraão tem um caráter redentivo, e não apenas para ele, mas para “Isaque e Jacó, herdeiros com ele na mesma promessa” (v.9). Note como, logo no início, toda a estrutura do pacto em seu estado mais desenvolvido, já é percebido em Abraão, pois é tido como um sacerdote e como um rei, visto que ele oferece sacrifícios, lidera um exército e tem a promessa de domínio sobre as nações e reis e a sua descendência (Gn 22.3; 14.13; 17.5-6)[24]. A idolatria de Israel no Egito configurou a quebra do pacto abraâmico (Js 24.14), foi em Moisés que o pacto foi restaurado os ofícios foram bem constituídos no povo.

O povo de Israel que tanto mais se multiplicavam e tanto mais se espelhavam na terra do Egito estavam sobre o domínio e autoridade de Faraó, sendo submetidos à trabalho escravo, e neste contexto, Moisés aparece. O seu nascimento foi marcado por um cuidado extraordinário, uma vez que Faraó ordenou a morte de bebês hebreus, o garoto recém nascido agora se encontra nos braços da filha dele. Após matar um egípcio em favor de um conterrâneo, Moisés foge para Midiã e, após muito tempo, recebe o chamado divino para livrar o povo das mãos do Rei do Egito. Matthew Henry nos informa que assim como as profecias haviam cessado por muitas gerações antes da vinda de Cristo, para que o ressurgimento e perfeição delas através deste Grandioso Salvador e Profeta pudessem ser os mais extraordinários, também a visão havia cessado (ao que parece) entre os patriarcas por algumas gerações antes da vinda de Moisés, para que as manifestações de Deus a ele, para a salvação de Israel, pudessem ser mais bem-recebidas[25]. O caráter do chamado de Moisés é fortemente associado ao conceito de mediador, uma vez que Deus diz “te constituí como Deus sobre Faraó” (Êx 7.1), ele é revestido de uma autoridade divina para executar o seu chamado, ou seja, tu serás mais poderoso que ele, impor-te-ás sobre ele[26], demonstrando que Moisés, assim como todos os demais profetas do Antigo Testamento, são vozes vivas de Deus na terra, constituídas por Ele para falar ao seu povo. Esta autoridade divina dada ele responde à pergunta de Moisés “quem eu sou?” (Êx 3.11), pois Deus seria com Ele (v.12), embora Moisés perguntasse o nome de Deus, seriam as suas obras e o pacto divino que o faria saber quem Ele é, pelo que Deus responde dizendo Eu sou o que Sou (v.14) e logo em seguida, diz “O Senhor, o Deus de Abrão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”. Em contraste com a idolatria tão combatida por Deus e declarada fervorosamente contra a sua vontade, note o caráter litúrgico que Deus está sinalizando para Moisés, uma vez que é dito “servireis a Deus neste monte” (v.12) e, ao declarar quem Ele era, Deus afirma “assim serei lembrado” (v.15)[27]. O termo para lembrado aqui é זִכְרִי e significa invocado[28], isto porque a ideia de זֵ֫כֶר aponta para lembrança, memória, menção. Moisés será, portanto, usado por Deus como transição de seu povo da idolatria para o culto ordenado e prescrito por Deus (Êx 19.3-6; Dt 4.10-14; 5.1-33; 12.1-32; Hb 3.2-5) e não poucas vezes, vemos profetas contra o povo de Israel justamento por causa da idolatria (Is 1.2-4; Jr 2.11-13; 7.8-10; Ez 6.4-6; Os 4.12-14; Mq 1.7; Zc 10.2), tendo por causas mais excelentes a influência de outros povos e falsos profetas (Dt 13.1-5;18.20-22; Jr 14.14-15; Jr 23.16-32; Ez 13.2-9;).

Quanto à autoridade profética, destacamos o poder miraculoso que esses homens possuíam em determinados períodos da revelação. Nenhum homem seguiria um pastor de ovelhas para rebelar-se contra um grande rei de uma nação poderosa, rumo ao deserto, sem um destino certo, a menos que esse pastor demonstrasse, de forma extraordinária, a autenticidade de seu chamado. Nem mesmo Moisés se julgou capaz disso, pois disse a Deus: “... não crerão em mim, nem darão ouvidos à minha voz, mas dirão: O Senhor não te apareceu” (Êx 4.1). Como se não bastasse, após convencer Moisés de seu chamado à terra do Egito, assegura-lhe dizendo: “Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todos os milagres que te ei posto na mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo” (Êx 4.21) e mais a frente, a credibilidade de Moisés não apenas é fragilizada diante de Faraó, mas diante do povo, visto que eles foram alvo de mais dura servidão (Êx 5.6-9). O conflito em que Moisés se encontrou o fez questionar novamente “por que me enviaste?” (v.22), este mesmo conflito, criado pelo próprio Deus, tem um propósito: “agora, verás o que hei de fazer a Faraó; pois, por mão poderosa, os deixará ir e, por mão poderosa, os lançará fora de sua terra” (6.1) e ratificando, mais a frente, a sua aliança (v.2-5), assevera “vos tirarei de debaixo das cargas do Egito, e vos livrarei da servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes manifestações de julgamento” (v.6). O versículo posterior é ainda mais pontual, pois associa a obra de Deus, seus feitos por meio de Moisés com uma finalidade redentiva: “tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o Senhor vosso Deus” (v.7). Fica claro que o ministério de Moisés é singular na história da redenção e o seu modo de executar sua vocação é extraordinária em virtude do caráter redentivo a qual estava ordenado pelo próprio Deus. Os milagres eram também autoritativos, pois Deus os usa contra o povo ao dizer “todos os homens que viram a minha glória e os meus sinais que fiz no Egito e no deserto, e me tentaram estas dez vezes, e não obedeceram à minha voz, não verão a terra de que a seus pais jurei” (Nm 14.22,23).

O testemunho bíblico destaca Moisé, pois “nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, com quem o Senhor houvesse tratado face a face” (Dt 34.10). A expressão פָּנִים אֶל־פָּנִים face a face não pode ser usada para identificar um conhecimento absoluto de Deus em termo metafísicos e ontológicos, pois isto já nos é impossível, como já fora dito. Leia-se que Deus diz “boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas” (Nm 12.8), assinalando que o modo de Deus se revelar à Moisés é claro e sem rodeios. Acerca de outros profetas lemos “se entre vós há profetas, eu, o Senhor, em visão a ele, me faço conhecido ou falo com ele em sonhos” (v.7). Por mais que ambos não tivessem perfeitamente o conhecimento de Deus, tal como Ele é em essência, o modo como Deus fala a Moisés é perfeito em virtude da finalidade que Ele se revela aos homens, enquanto aos demais profetas, vemos um caráter mais enigmático. E tal é a autoridade de Moisés sobre o povo de Deus, que ele não somente age em termos de sinais e prodígios, mas o seu ensino e autoridade não deve ser contestado. O período mosaico, portanto, foi o estabelecimento do pacto com o povo de Israel, a figura de Moisés é o ponto central em que desenrola o livramento do povo, o estabelecimento da lei, o culto a Deus e as promessas (Rm 9.4,5; Êx 4.15-16; 7.1,2; 19.9; Nm 7.89; 12.8; Dt 5.22-28), onde Deus mostra os sinais e prodígios como credenciais da autoridade profética (Êx 7.3; 10.1,2; Nm 14.11,22; Dt 4.34; 6.22; 7.19; 11.3; 26.8; 29.3; 34.11; Js 24.17). Esta singularidade do legislador de Israel é identificada e geralmente mencionada após a sua morte (Dt 34.9-12; Js 1.2-17; Js 3.7; 4.10-14; 8.31-35; 9.24; 11.12,15,20,23; 12.6; 13.8; 14.5,6,10; 17.4; 18.7; 20.2; 21.2,8. 22.2,5,9; 23.6; 24.5).

No ministério de Moisés é possível observar uma preocupação importante: os falsos profetas. Enquanto ele estabelece a religião, normatiza o culto a Deus e a instrução de seu povo dizendo “tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhes acrescentarás, nem diminuirás” (Dt 12.32), a seguir ele adverte “quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta” (13.1-3), o que é curioso: os milagres que autentificam a vocação profética não pode divergir do ensino profético até então fundamentado e estabelecido. A singularidade de Moisés aqui é mais acentuada, pois Moisés, sob orientação de Deus, se coloca como o padrão do que é verdadeiro ou falso. Tal critério é tão firmemente posto, que nem mesmo sinais, prodígios ou maravilhas que viessem a ocorrer por meio dos falsos profetas deveriam ser levados em conta. A característica atribuída ao falso profeta é a soberba (18.22), pois toda a ousadia de mudar os padrões da verdadeira religião em virtude de um sinal ou prodígio realizado não pode ser encarado de outra forma. Mas a história de Israel, tanto no período dos Juízes como na monarquia é marcada por inconstâncias por parte do povo judeu e a profecia seguirá o seu curso, não mais no estabelecimento do pacto, mas em sua manutenção e aperfeiçoamento, a formação de um texto normativo progride no avanço da revelação e aquilo que foi advertido por Moisés como erro e pecado, depois de muito tempo, é normatizado na monarquia de Israel e relativizado em Judá, sendo um tempo de apostasia generalizada, corrupção espiritual e ameaça à continuidade da aliança.

Os profetas são usados por Deus para ensinar a Lei, chamar o povo ao arrependimento e exortá-los do juízo de Deus. A ideia principal do Antigo Testamento se sumariza na inimizade do culto ao Verdadeiro Deus contra a idolatria, é nisto que o pacto foi fortemente violado pelo povo de Israel. Neste contexto, os profetas Elias e Eliseu são levantados de forma mais extraordinária para demonstrar a fraqueza dos falsos deuses adorados pelo povo de Deus. Elias ao profetizar a ausência de chuva (1Rs 17.1), invoca a maldição de Deus sobre os israelitas, não dele mesmo, mas prometido pelo próprio Deus no estabelecimento da aliança. Guardai-vos, que o vosso coração não se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos inclineis perante eles; E a ira do SENHOR se acenda contra vós, e feche ele os céus, e não haja água, e a terra não dê o seu fruto, e cedo pereçais da boa terra que o SENHOR vos dá, dirá Deus (Dt 11.16,17) e mais a frente ratifica e os teus céus, que estão sobre a cabeça, serão de bronze; e a terra que está debaixo de ti, será de ferro. O SENHOR dará por chuva sobre a tua terra, pó e poeira; dos céus descerá sobre ti, até que pereças (28.23,24).

A profecia de Elias se revela no Novo Testamento como uma oração do profeta (Tg 5.17) e diante de um pedido de efeitos devastadores na terra de Israel, as Escrituras dizem que Deus o sustentou durante todo o período da seca[29]. Em um primeiro momento, Deus o manda para um ribeiro, onde corvos são ordenados por Deus para sustentarem o profeta (1Rs 17.4), os efeitos devastadores da oração de Elias fez com que o rio secasse, e por ordem divina foi para Sarepta, ordenando uma viúva para cuidar do profeta (17.7-9), alimentando extraordinariamente uma viúva “assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra” (v.14), posteriormente, o filho desta mulher adoece “até que nele nenhum fôlego ficou” (v.17). Note que o questionamento da viúva deixa implícito o modo como ela enxerga a adversidade que lhe sobrevém “vieste tu a mim para trazeres à memória a minha iniquidade, e matares a meu filho?” (v.18). A percepção que o ministério profético transmitia em sua época era de completo perigo, pois eles eram representantes de Deus e não podiam ser ofendidos e nem mesmo irritados, a palavra do profeta era palavra do próprio Deus, seja na benção, seja na maldição. Petrus Vermigli ao comentar essa porção em sua obra Melachim, diz que talvez essa doença tenha tido causas naturais, mas Deus se valeu delas, tanto para manifestar seu poder como para confirmar a doutrina e pregação de Elias[30]. Com a morte de seu filho, ela não lança em rosto a ele o benefício da hospitalidade que lhe prestara, nem o acusa de ingratidão ou de crueldade. Estas não são palavras de uma mulher arrogante e altiva, mas de alguém abatido, modesto e penitente, que se julga indigna de ter vivido com Elias[31]. Ela entendeu que seus pecados foram a causa da calamidade que lhe fora infligida, e que a justiça de Elias foi a ocasião. Suas palavras não são apenas cheias de dor, mas também de piedade. Pois não é pequena parte da religião e da santidade confessar que não se está isento de pecados. Isso ela soube, e ao mesmo tempo sentiu a presença de Deus em Elias, que não deixa os pecados impunes[32]. Disto se deduz a natureza santa do ministério profético, a justiça que esses homens transmitiam em sua conduta que, de certo modo, dado a porção do Espírito, era de certa forma, extraordinária. O final da história se conclui com a finalidade revelacional cumprida, quando a mulher diz “Nisto conheço agora que tu és homem de Deus e que a palavra do Senhor na tua boca é verdade” (v.24)

O anúncio da chuva é dado com uma ordem: “Vai, apresenta-te a Acabe, porque darei chuva sobre a terra” (1Rs 18.1). O texto introduz uma informação, Jezabel destruiu os profetas do Senhor (v.4) e Acabe, rei de Israel, estava em busca de Elias. Ao encontrar-se com Acabe e sugerir que o povo de Israel e os profetas de Baal fossem reunidos, ele exorta o povo dizendo “até quando coxearás entre dois pensamentos?” (v.21). A sequência dos eventos que sucederão neste enredo tem a finalidade descrita por Elias em sua oração “manifeste-se hoje que tu és Deus em Israel, e que eu sou o teu servo, e que conforme à tua palavra fiz todas estas coisas” (v.36). Aos que estão atentos ao artigo, percebem que o verbo usado aqui para o verbo manifestar é o termo hebraico para conhecer. O profeta continua a sua oração dizendo: “responda-me, Senhor, responda-me, para que este povo conheça que tu és o Senhor Deus, e que tu fizeste voltar o seu coração” (v.37). Vermigli nos aponta que as orações desse homem tinham três partes principais. Primeiramente, ele pede que o próprio Jeová seja reconhecido e recebido como o verdadeiro e único Deus. Em segundo lugar, ele suplica que o seu ministério seja confirmado, de modo que seja tido por um verdadeiro ministro da Palavra de Deus. Por fim, roga para que o coração do povo se converta a Deus, afastando-se das falsas devoções. O fim principal é a glória de Deus — a saber, que o conhecimento de Deus se propague no mundo; em seguida, considera-se a salvação dos homens[33].

Para nosso propósito aqui, acredito que foi demonstrado o suficiente sobre o ofício profético como ligada à estrutura pactual: Deus se revela com propósito redentivo, estabelecendo uma relação de aliança que abrange não apenas indivíduos, mas sua descendência e, por fim, as nações (Gn 12.3). Toda esta estrutura revelacional está sendo, sob inspiração divina, registrada e preservada para o estabelecimento de um modo objetivo e autoritativo de regra de fé e prática.

O ofício profético na pessoa de Jesus Cristo

A autoridade profética é dada a Jesus Cristo plenamente, uma vez que o Pai usou de sombras para tipificar as verdades espirituais, Cristo é a luz de todos esses enigmas. A vontade de Deus é mais clara e perfeita na pessoa de Cristo, uma vez que Ele mesmo dirá o que Isaías profetizou a seu respeito “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração de vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). Cheio do Espírito, ele vence a tentação do Diabo (Lc 4.1), ensinava nas sinagogas (v.14), demonstra superioridade em sua doutrina (v.32), expulsava demônios (v.36) e o que se dizia a seu respeito cada vez mais se divulgava, e grandes multidões afluíram para o ouvirem a serem curadas de suas enfermidades (5.15). Tendo o silêncio divino se estendido por muito tempo em Israel, o sussurro de Joao Batista no deserto agora torna-se em barulho ensurdecedor na pessoa de Cristo, pois seu ensino e manifestação claramente fez Nicodemos confessar dizendo que “ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3.2). Enquanto na terra, ele continuou o exercício de seu ofício profético através de instruções pessoais, em discursos, parábolas e exposições da lei e dos profetas; e em tudo isso ele ensinou concernente à sua própria pessoa e obra, e concernente ao progresso e comunicação de seu reino[34]. Berkhof salienta que era dever dos profetas revelar a vontade de Deus ao povo. Isto podia ser feito na forma de instrução, admoestação e exortação, promessas gloriosas ou censuras severas. Eles eram os monitores ministeriais do povo, os intérpretes da lei, especialmente nos seus aspectos morais e espirituais. Era seu dever protestar contra o mero formalismo, acentuar o dever moral, fazer ver a necessidade do serviço espiritual e promover os interesses da verdade e da justiça. Se o povo se afastava das veredas do dever, eles tinham que chamá-lo de volta à lei e ao testemunho, e anunciar o iminente terror do Senhor sobre os ímpios. Mas a sua obra também estava intimamente relacionada com as promessas da graça de Deus para o futuro. Era seu privilégio descrever as coisas gloriosas que Deus tinha em depósito para o Seu povo[35]. Cristo Jesus cumpre isto com mais elevada excelência, pois ele é a Palavra de Deus (Jo 1.1-2), o verdadeiro e último Profeta, não apenas por falar em nome de Deus, mas por ser Deus falando aos homens (Mt 7.28-29). Uma vez que os milagres estão, segundo Berkhof, relacionados com a economia da redenção, uma redenção que com freqüência eles preguram e simbolizam[36], notamos como Cristo torna isto mais claro quando, questionado pelos discípulos de João Batista sobre se Ele era o Messias (uma questão vinculada a redenção do povo, no pensamento judaico), Cristo diz “Ide e anunciai a João o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-lhes o evangelho” (Lc 7.22). As ações e as palavras de Jesus constituíam sinais indubitáveis de que ele era o Messias a quem João Batista e outros judeus piedosos esperavam, e de que o reino de Deus já estava em ação na história, mudando o destino de uma humanidade perdida em suas misérias e necessitada de restauração.[37] E “Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todo tipo de doenças e enfermidades” (Mt 9.35). O caráter redentivo dos milagres é demonstrado quando Jesus repreende severamente às cidades impenitentes “nas quais ele operava numerosos milagres, pelo fato de não terem se arrependido” (Mt 11.20).

Esse ministério profético de Jesus Cristo (que nos basta dizer até aqui em virtude do amplo e vasto conhecimento que todos têm de seu ministério e propósito) estender-se-á aos seus apóstolos, uma vez que são separados por Cristo para levarem a mensagem do Evangelho como fundamentos onde a Igreja se alicerçará posteriormente (Ef 2.20).

O ofício apostólico no Novo Testamento

A extensão da revelação específica dentro da nova administração do pacto, por meio de Cristo, embora tivesse a presença temporária de profetas, que interpretavam a lei e, de modo extraordinário, autoritativo e eficaz, apresentavam a vontade de Deus, nos apóstolos vemos uma vocação direta e semelhante aos profetas do Antigo Testamento. Os apóstolos são aqueles que Deus comissionou para a fundação da Igreja neotestamentária em sua doutrina, ensino e tradição, pelo que lemos que Cristo “depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi assunto aos céus” (At 1.2). A autoridade profética de Cristo é conferida a eles pelo poder do Espírito Santo e muitos sinais e feitos extraordinários eram realizados pelos apóstolos (2.43).

Em a grande comissão, Jesus diz “toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que tenho ordenado a vocês” (Mt 28.18). A primeira coisa a destacar é que a missão dos apóstolos é dada em virtude da autoridade de Cristo, que não é apenas aquele segundo Adão, pela qual representa a nova humanidade por ele restaurada, mas o mediador pelo qual a aliança entre Deus e esses eleitos são reconciliados. O escritor aos Hebreus nos explica que "Deus, que várias vezes e de diversas maneiras falou aos pais pelos profetas, falou-nos nestes últimos dias pelo seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, por quem fez também o universo." (Hb 1:1-2). O ápice da revelação é Cristo, pelo que muito atualmente (principalmente os que querem desordenadamente a contínua revelação e manifestação do Espírito, sem levar em consideração a economia de seu plano redentivo) problematizam a revelação de Deus aos apóstolos, sugerindo que, dado que a manifestação e revelação se estendeu até mesmo depois de Cristo, não seria errado a sua extensão até os tempos contemporâneos. O problema surge da incapacidade, destes novos teólogos, de imprimir o modo como a revelação de Deus se dá no Antigo Testamento ao Novo. Quando Moisés é chamado por Deus fica claro que nele se sumariza toda a estrutura da Lei, dos Profetas e dos Salmos, isto porque ele era o mediador-padrão da aliança, porque Deus disse a Moisés “vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar” (Êx 4.12, perceba como isso é comum no ministério profético: Dt 18.18; Nm 23.5; Is 49.2; 50.4; Jr 1.1; Ez 3.27; Zc 8.9), lembre-se que Deus já havia dado os sinais para realizar diante do povo e de Faraó e no final da Lei é mencionado a sua singularidade como profeta em Israel (Dt 34.10-12). Os eventos, sua explicação, assim como Deus revela a sua vontade em função do que foi feito são partes da revelação. E embora Cristo seja pessoal e historicamente a perfeita revelação de Deus, ele mesmo não aplicou, explicou e interpretou toda a revelação de si mesmo aos seus discípulos (pelo menos naquele momento), pelo que lemos Jesus afirmar “tenho ainda muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (Jo 16.12).[38] Uma vez que Cristo seria morto, ressuscitado e elevado aos céus, o Espírito viria e explicaria todos aqueles atos redentivos, assim como advertiria a Igreja, por meio deles sobre como deveriam proceder em resposta à sua obra. João Calvino, comentando este texto diz que:

... ele [Cristo] os convida a serem joviais e corajosos, seja qual fosse sua presente fraqueza. Mas como nada mais havia senão a doutrina em que pudessem confiar, Cristo os lembra de que a confiara à capacidade deles. No entanto, para levá-los a esperarem que logo depois obteriam uma instrução muito superior e mais abundante, é como se quisesse dizer-lhes: “Se o que ouvistes de mim ainda não for suficiente para confirmar-vos, sede um pouco mais pacientes; pois antes de muita delonga, tendo desfrutado do ensino do Espírito, de nada mais necessitareis; ele removerá de vós toda ignorância que ainda vos resta[39].

 O derramar do Espírito Santo prometido por Joel deve ser entendido por essa perspectiva. Embora não houvéssemos detalhado os diversos modos em que Deus se revelou no período da revelação progressiva do pacto, se o leitor leu até aqui, não resta dúvidas de que os modos revelacionais de Deus eram visões, sonhos, teofanias etc., tudo isso sob medida e oficiais medianeiros de Deus para com o povo, porém quando lemos a promessa de Jeremias dizendo "Porém este será o pacto que eu farei com a casa de Israel depois aqueles dias, diz o Senhor: Eu colocarei minha lei no seu íntimo, e a escreverei nos seus corações, e serei o seu Deus, e eles serão meu povo. E eles não ensinarão mais cada homem a seu próximo e cada homem a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque todos conhecerão a mim, desde o menor até o maior deles, diz o Senhor, pois eu perdoarei a sua iniquidade, e não me lembrarei mais do seu pecado." (Jr 31:33-34) e mais a frente "E eu lhes darei um coração, e um caminho, para que eles possam me temer para sempre, para o seu bem, e dos filhos após eles. E eu farei um eterno pacto com eles, que eu não me desviarei de fazer-lhes o bem. Mas eu colocarei meu temor nos seus corações, para que eles não se afastem de mim." (Jr 32:39-40), ou quando lemos Ezequiel profetizar dizendo "Um novo coração também vos darei, e um novo espírito eu colocarei dentro de vós, e eu tirarei o coração de pedra da vossa carne, e vos darei um coração de carne. E eu colocarei o meu espírito dentro de vós, e vos farei andar nos meus estatutos, e guardareis os meus juízos, e os fareis." (Ez 36:26-27) e vemos a indicação do autor aos Hebreus apontar Cristo como o cumprimento destas profecias (Hb 8.1-13), a ideia de Joel aqui não é descrever o modo como Deus se revelará, mas enfatizar a extensão desta revelação na Nova Aliança, contrapondo a inferioridade com que Deus se manifestava na antiga dispensação, por esta razão diz ele: "E acontecerá que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos sonharão sonhos, e vossos jovens verão visões. E também sobre os servos e sobre as servas naqueles dias derramarei o meu espírito." (Jl 2:28-29)[40].

O caráter profético aplica-se ao ministério dos apóstolos, pois a eles foram ordenadas as palavras que ensinassem (Mt 28.18) como foi a base da Igreja em seu ensino (At 2.42), logo, a continuidade da revelação neles e, evidentemente os sinais. Note que Paulo não se desvia desta linha ao relacionar a sua autoridade à condução dos gentios na piedade, uma vez que ele diz "… eu não ousaria falar alguma coisa que Cristo não tenha feito por mim, para fazer dos gentios obedientes, por palavras e por obras, pelo poder dos sinais e maravilhas, através do poder do Espírito de Deus; …" (Rm 15.18,19) e finalizando a sua epístola diz “… àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério mantido em segredo desde o início do mundo, mas que agora se manifestou e pelas escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, se fez conhecido a todas as nações para obediência da fé” (Rm 16.24,25), aos Gálatas, lemos “eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.12), é interessante que Paulo usa o Espírito Santo e suas extraordinárias operações para questionar se isto é feito pelas obras da Lei ou pela pregação do evangelho (Gl 3.5), usando a evidência dos milagres para demonstrar a transição da antiga para a nova dispensação da graça, como vemos na epístola aos Hebreus “Deus também lhes foi por testemunha, com sinais e maravilhas, e com diversos milagres e dons do Espírito Santo, de acordo com sua própria vontade?” (Hb 2:4), assim como usa para validar o seu ministério apostólico, pois ele se defende de seus acusadores dizendo "… os sinais de um apóstolo foram manifestos entre vós com toda a paciência, por sinais, maravilhas e poderosos feitos" (2Co 12:12). Aos Colossenses, Paulo assevera que se tornou ministro "… segundo a dispensação de Deus, que me foi concedida para convosco, para cumprir a palavra de Deus;" (Cl 1:25) e qual a finalidade de tudo isto? Ele explica dizendo “a quem anunciamos, admoestando a todo o homem, e ensinando a todo o homem em toda a sabedoria; para que apresentemos todo o homem perfeito em Cristo Jesus;” (Cl 1:28). Por esta razão, se o fundamento da Igreja é a doutrina profética e apostólica, é necessário que essa doutrina tivesse sua inteira infalibilidade antes que a Igreja começasse a existir[41]. Por meio do ministério extraordinário dos profetas e apóstolos, o Espírito entregou o cânon de Cristo por inspiração, constituindo a comunidade da nova aliança; por meio do ministério comum dos pastores, o Espírito guia a igreja por iluminação à medida que ela é formada e normatizada por essa constituição[42].

CONCLUSÃO

Este breve artigo tem uma proposta [modesta e introdutória], trazer os fundamentos bíblicos da teologia reformada sobre o cessacionismo, pois sendo que os dons visam um fim proveitoso, estes dons extraordinários se ordenam à finalidade redentiva de edificar a Igreja no conhecimento da verdade, sendo, portanto, de natureza fundacional e não contínua na Igreja. Eles não estão associados ao montanismo, ao anabatismo e ao pentecostalismo, mas à Igreja de Jesus Cristo em seu período inicial, que pelo poder do Espírito, demonstrou aos judeus a nova dispensação da graça que havia chegado pela obra de Cristo e a entrada dos gentios a esta obra salvadora, conforme o plano divino estabelecido da eternidade.



[1] O termo fundamento usado aqui em grego é θεμέλιος que aponta para a ideia de fundação, portanto, não é imprudente inferir daqui a singularidade deste período revelacional que se desenvolve em todo o Antigo e Novo Testamentos [há um debate sobre a natureza desta construção gramatical τν ποστλων κα προφητν, que pode ser lida em Wayne Grudem, O Dom de Profecia no Novo Testamento e Hoje (São Paulo: Vida Nova, 2014) — pág. 423-443]. Isto porque, a ideia de fundamento já estava claramente latente na Lei e nos Profetas, uma vez que lemos que Moisés é orientado por Deus a escrever uma canção que seria um testemunho contra o povo da Aliança, o profeta declara que “Ele é a rocha! Suas obras são perfeitas” (Dt 32.4) e como vemos a ideia de edificação associado ao templo, a Casa do Senhor (1Rs 5.17; 6.1; Es 5.16), o profeta Isaías usa analogamente o mesmo conceito para anunciar a pedra que poria em Sião como alicerce, pedra preciosa de esquina, de firme fundamento (Is 28.16, a expressão firme fundamento aqui é o termo hebraico מוּסָ֣ד posta duas vezes denotando ênfase e tendo como sentido básico a noção de estabelecimento, fundação. O fundamento que Deus coloca em Sião é seguro, inabalável e divinamente estabelecido — não há dúvida quanto à sua confiabilidade) e mais a frente prediz que os alicerces com safira (Is 54.11) e ainda neste texto lemos “teus filhos serão ensinados do Senhor” (v.13), a mesma que esmiuçou o ferro, o bronze, a prata e o ouro no sonho de Nabucodonosor (Dn 2.45).

[2] Sendo Deus a fonte primária do qual todas as coisas procedem, fica evidente que ele possui conhecimento das coisas criadas e possíveis em sua essência de modo primário, como diz Berkhof, Ele conhece o universo como ele existe em Sua própria idéia anterior à sua existência como realidade nita no tempo e no espaço (Teologia Sistemática [recurso eletrônico], pág. 92), análogo ao arquiteto que conhece o prédio que constrói antes mesmo daquele que entrará e comprará o imóvel edificado.

[3] Isto significa que Deus não adquire conhecimento por meio de observação, raciocínio ou aprendizado, mas o possui de forma imediata e inerente. Ao descobrir o valor de uma variável em uma equação, precisamos de um processo de isolamento por parte da incógnita, Deus faz isso sem nenhum processo, mas imediatamente. Enquanto um médico precisa realizar exames para diagnosticar uma doença, Deus já conhece o estado do paciente sem necessidade de qualquer mediação

[4] Por simultâneo, queremos dizer que o conhecimento de Deus não tem sucessão ou passagem de tempo, mas, como afirma o reverendo Dr. Héber Campos, Deus vê todas as realidades em sua totalidade e não pouco a pouco, ou de modo sucessivo (O Ser de Deus e seus atributos, 2002, pág. 223).

[5] CAMPOS, 2002, pág. 17

[6] Ibid, pág. 17

[7] Johannes Maccovius diz que há uma diferença entre a ordem transcendental e predicamental. Esta diz respeito à ordem das criaturas, que está sujeito às categorias da realidade criada e lembre-se, aqui Maccovius reflete o pensamento de Aristóteles das categorias: substância (οσία, substantia), quantidade (ποσόν, quantitas), qualidade (ποιόν, qualitas), relação (πρός τι, relatio), lugar (πο, ubi), tempo (πότε, quando), posição (κεσθαι, situs), posse (χειν, habitus), ação (ποιεν, actio), paixão (πάσχειν, passio). Enquanto Deus, transcende todos esses predicamentos ou categorias, por isto o nome, ordem transcendental, pois ele transcende todas essas coisas – para mais informações deste assunto, consultar o livro Discurso Escolástico: distinções, regras teológicas e filosóficas; tradução por Frankle Bruno e Francisco Tourinho — São Luís, MA. Editora Theophilus, 2023, pág. 235-6)

[8] Quando lemos as Sagradas Escrituras, notamos como o conhecimento está intimamente ligado ao relacionamento; peguemos o exemplo dos filhos de Eli que, segundo as Escrituras, “não se importavam com o Senhor” (1Sm 2.12), a expressão “se importavam” é o verbo hebraico יָדְע֖וּ de יָדַע que significa “conhecer”. Essa expressão aparece muitas vezes na Escritura muito mais que mero conhecimento intelectual, usado também como eufemismo para relação sexual (Gn 4.1,17; 19.5 [a ARA traz a ideia de abuso sexual neste texto]; 1Rs 1.4). Isaías descreve que dado o castigo de Deus sobre o Egito seguido de sua redenção e lemos “E o Senhor se dará a conhecer ao Egipto e os egípcios conhecerão ao Senhor naquele dia, e o adorarão com sacrifícios e ofertas, e farão votos ao Senhor, e os cumprirão” (Is 19.21). Note que o conhecimento segue-se a uma reação positiva dos egípcios para com Deus, indicando culto sincero e relacional “adorarão... farão votos... cumprirão”. O salmista diz “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto, para que se conheça na terra o teu caminha, e, em todas as nações, a tua salvação” (Sl 67.1-2), novamente vemos o conhecimento atrelado, à salvação, redenção e, portanto, um relacionamento genuíno com Deus. Quando o povo quebrou o pacto com Deus, entregando-se a impiedade, Deus diz pela boca do profeta “O boi conhece o seu proprietário, e o jumento, o cocho posto pelo dono; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende. Ah, nação pecadora, povo carregado de maldade, descendência de malfeitores, filhos que praticam a corrupção! Deixaram o SENHOR, desprezaram o Santo de Israel, afastaram-se dele.” (Is 1:3-4). Não nos percamos, os exemplos são vários, mas podemos sumarizar a ideia de conhecimento ao conceito de relacionamento, interação e obediência. Podemos dizer também que o conhecimento está estritamente ligado à ideia de eleição, quando lemos o apóstolo dizer “Deus não rejeitou o seu povo, ao qual conheceu de antemão” (Rm 11.2), note que o verbo conhecer aqui (em grego προέγνω, de προγινώσκω; LouwNida: escolher ou selecionar antes de algum outro evento) está em contraponto com o verbo rejeitar.

[9] Note o versículo 17: κα δν ερνης οκ γνωσαν (lit. e o caminho da paz não conhecem), onde o verbo γνωσαν é uma tradução da Septuaginta para יָדָ֔עוּ.

[10] OWEN, John. O Espírito Santo; 1.ª Edição; eBook. Os Puritanos, 2013 — pág. 49

[11] GRONINGEN, 1995, pág. 54, 55

[12] GRONINGEN, 2006, pág. 13

[13] BRASIL, Paulo. A igreja no Velho Testamento. 1ª ed. [Transcrição da palestra proferida pelo Pr. Paulo Brasil por ocasião do SIMPÓSIO REGIONAL OS PURITANOS em Recife/fevereiro/2006] Recife, PE. Os Puritanos, 2013 — pág. 17

[14] O aspecto providencial de Deus nesse período não pode ser esquecido; não deve lidar com essa concorrência como que se houvesse um sinergismo em termos de salvação, uma vez que a iniciativa do pacto e o ato redentivo veio de Deus ao povo.

[15] ERIKSON, Millard. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2015 (pág. 165)

[16] VOS, Geerhardus. Teologia bíblica, antigo e novo testamentos; traduzido por Alberto Almeida de Paula. São Paulo: Cultura Cristã, 2010 — pág. 20

[17] VOS, 2010, pág. 16

[18] GRONINGEN, 1995, pág. 59

[19] Ibid, pág. 59

[20] Ibid, pág. 59

[21] Ibid, pág. 60

[22] A partir desta investigação, temos um fundamento para aquilo que os divinos de Westminster estabeleceram ao dizer que “todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW 1.6).

[23] A expressão hebraica usada neste contexto para se referir ao profeta é נָבִיא que significa porta-voz, orador. Gisbertus Voetius [Selectarum disputationum theologicarum, Ultrajecti: apud Joannem à Waesberge, II, pág. 1038] dirá que é um termo que concorda com os caldeus ou sírios e os árabes, os quais, após Maomé, chamam especialmente o seu profeta אלנביא. Ocorre também no Targum o termo נְבִיוּת (Nm 11.29; Pv 30.1), o conceito era amplamente conhecido na antiguidade oriental como alguém intimamente ligada aos deuses. Em grego a expressão comum, relativa ao termo hebraico, é προφτης, do verbo πρόφημι que em sentido geral aponta a ideia de intérprete ou declarador [An Intermediate Greek-English Lexicon — Henry George Liddell/Robert Scott, 1889]. Porém, há outros termos que podem são sinônimos nas Escrituras que apontam para os profetas: רֹאֶה é um termo alternativo (1Sm 9.9) que significa aquele que vê, Samuel e Asafe são chamados de videntes (1Cr 9.22; 2Cr 29.30). Os profetas Elias e Eliseu são chamados de אִישׁ אֱלֹהִים homem de Deus” (1Rs 17.24; 2Rs 4.9).

[24] SMITH, Ralph Allan. Estrutura pactual da Bíblia [recurso eletrônico], 1ªed. Brasília, DF. Editora Monergismo, 2020 — pág. 22

[25] HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry: Antigo e Novo Testamento (6 vols). Rio de Janeiro: CPAD, 2006 (1:232)

[26] FARRAGINIS, D. A. In Exo annotationvm particula, per Leonem luda er Galparem Megandrum ex ore Zwingli er aliorum Tiguri Deuterotarum comportata. Tiguri: Ex edibus Christophori pros chauer, 1537. — pág. 56

[27] O termo servir (hb. תַּעַבְדוּן) aqui é o mesmo para adorar. Ralph Smith salienta o significado deste verbo עבד como termo aplicado ao escravo caseiro e ao súdito ou vassalo de um suserano. Entretanto, a ênfase não é tanto na condição servil do adorador como na função de executar a vontade do senhor. O vassalo habita a casa ou o reino do senhor. No contexto de adoração, a palavra se refere à condição humilde e ao desempenho fiel do trabalho dado ao adorador [Ralph L. Smith, Teologia do Antigo Testamento: história, método e mensagem. São Paulo: Vida Nova, 2001 — pág. 302].

[28] WALTKE, Bruce K. Teologia do Antigo Testamento, uma abordagem exegética, canônica e temática. São Paulo: Vida Nova, 2015 — pág. 411

[29] O objetivo da política e das ações de Acabe e Jezabel era promover Baal como a divindade nacional de Israel, em lugar de Yahweh. A disputa da qual Elias sai vencedor diz respeito a qual divindade é rei — qual é a mais poderosa. No material cananeu disponível na literatura antiga (particularmente as informações fornecidas pelas tábuas ugaríticas), Baal é o deus da tempestade e dos relâmpagos e é responsável pela fertilidade da terra. Ao reter a chuva, Yahweh está demonstrando o poder de seu senhorio na área específica da natureza em que Baal supostamente dominaria. Dar esse aviso de antemão a Acabe é o meio pelo qual o senhorio e o poder de Yahweh estão sendo retratados. Se Baal é o provedor da chuva e Yahweh anuncia que irá contê-la, a disputa está em andamento. WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018 — pág. 488

[30] VERMIGLI, Pietro Martire; WOLPHIUS, Johannes. Melachim, id est, Regum libri duo posteriores cum commentarijs. Tiguri: Excudebat Christophorus Froschoverus, mense Martio, 1571 — pág. 141

[31] Ibid, pág. 141

[32] Ibid, pág. 141

[33] Ibid, pág. 151

[34] Charles Hodge, Teologia Sistemática, trad. Valter Martins, 1a edição. (São Paulo: Hagnos, 2001), 829.

[35] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, trad. por Odayr Olivetti [recurso eletrônico]. (Campinas: Luz Para o Caminho, 1990), 568.

[36] Ibid, 275

[37] Darío Andrés López Rodríguez, “Lucas”, in Comentário Bíblico Latino-Americano, org. C. René Padilla et al., trad. Cleiton Oliveira et al., 1. ed. (São Paulo: Mundo Cristão, 2022), 1301.

[38] A expressão grega ο δνασθε βαστζειν ρτι pelo contexto, não se refere à incredulidade típica dos ímpios, mas a uma limitação pedagógica dos próprios discípulos, análoga àquela circunstância, pois momentos antes, Jesus ao falar do Espírito da Verdade que eles receberiam para a compreensão daquilo que faltava ensinar, disse que “o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece” (14.17), logo depois, ele reforça o caráter redentivo a qual o Espírito Santo iria ser designado a eles, não os deixando órfãos, nem ignorantes, mas nutriria a relação entre eles e Deus, levando-os obedecer os seus mandamentos, pelo que novamente diz, “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (v.26). Diante disto, embora o verbo βαστάζω tenha a ideia de tomar com as mãos, levar e suportar em seu sentido mais primário, a ideia de suportar no texto indica aceitação, próximo do sentido do verbo δέχομαι, pelo que lemos ψυχικς δ νθρωπος ο δέχεται τ το Πνεύματος το Θεο·pois, o homem carnal não aceita as coisas do Espírito de Deus (1Co 2.14). O grande problema com esse ponto de vista pode estar associado a questão da regeneração, mas respondemos que embora Pedro dissesse que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo (e isso só foi possível por meio da revelação do Pai), será que havia ali, naquele momento a compreensão total, plena e cabal de toda a revelação dessa verdade? O próprio Jesus diz que eles conhecem o Espírito (Jo 14.17), mas Jesus precisava ser glorificado para que algo ainda mais amplo e completo fosse anunciado. Tomé, discípulo de Cristo, só acreditou na ressurreição de seu mestre após vê-lo com suas mãos cravadas (Mt 16.17). Os discípulos na hora da morte apresentam uma fraqueza que os fazem fugitivos perante aquela dura e pesada adversidade que Jesus Cristo enfrentava (Mc 14.50). Ora, se os próprios fatos já testaram duramente a fé dos discípulos, revelando sua fragilidade, quanto mais difícil seria para eles suportar o peso de tais verdades antes mesmo de testemunharem sua realização. Mas vale especificar que a prioridade do texto é ressaltar a incapacidade de um entendimento claro das verdades cristãs àquela altura, “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). Embora já regenerados e crentes, os discípulos ainda não podiam assimilar os desdobramentos da cruz e da nova aliança, pois tais verdades estavam condicionadas à realização dos eventos salvíficos.

[39] CALVINO, João. O evangelho segundo João (Vol. 2). São José dos Campos, SP: Fiel, 2015 — pág. 155

[40] Os diversos modos de profecia, que não eram catalogados como tipos ou gêneros, mas tudo entendido como a clara manifestação de Deus a pouco homens para ministrarem ao povo de Deus, deixa de ser algo de ofício, e passa a ser algo que vai habitar nos corações de seus filhos, pelo que João diz "Porém a unção que vós recebestes dele permanece convosco, e não tendes necessidade de que homem algum vos ensine; mas como a mesma unção vos ensina todas as coisas, e é verdade, e não mentira, como ela vos ensinou, vós haveis de permanecer nele. E agora, filhinhos, permanecei nele; para que, quando ele se manifestar, possamos ter confiança, e não sejamos envergonhados diante dele em sua vinda." (1Jo 2:27-28). O apóstolo associa essa unção ao perfeito entendimento das coisas relativas à salvação em detrimento daqueles que, por meio de elementos fora da tradição apostólica, queriam se denominar superiores, os antigos gnósticos. Ora, uma vez que desde o princípio, a ideia de revelação está associada ao conhecimento de Deus, tendo em vista às coisas relativas à redenção, sugerir uma relação à parte deste pressuposto bíblico, está claramente fora de cogitação. Perceba o aspecto contínuo do verbo μένω no texto, sugerindo através da expressão μένετε ν ατ a ideia de continuidade da permanência do Espírito nos crentes. Anteriormente, o apóstolo diz “vós tendes a unção do Santo, e sabeis todas as coisas” (1Jo 2.20).

[41] CALVINO, João. As Institutas, 1.7.2

[42] Horton, Michael. Doutrinas da fé cristã (1ªed.). Cultura Cristã, 2016 — pág. 923

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

OS NOMES DE DEUS

 


Loci Communes, cap. XIV

Foi tratado sobre a Palavra de Deus e suas afeições eficácia e partes; segue-se agora o objeto dela. O objeto primário da Palavra é Deus; o secundário, a criatura.

Portanto, o objeto da teologia é um gênero análogo, tendo sob si duas quase espécies: Deus como objeto primário, e as criaturas como objeto secundário. Assim, quando tratarmos do objeto da Teologia, falaremos principalmente sobre Deus e, sobre as criaturas, em relação a Deus. Deus é considerado de forma absoluta ou relativa. De forma absoluta, é considerado em relação ao nome ou em relação ao ser. Em relação ao nome, é chamado de יהוה, κύριος e Deus. Sobre Deus, considerado em relação ao nome, são estes os princípios.

I. A palavra יהוה Iehová é própria somente de Deus, de tal modo que não pode ser atribuída a nenhuma criatura fora de uma construção, ou em caso reto.

A palavra Iehová é usada de duas maneiras nas Escrituras, em uma construção e fora de uma construção. Essa distinção deve ser bem observada contra os socinianos. Iehová é usado em uma construção quando a palavra Iehová é ligada a algo, como quando Jerusalém é chamada de Iehová, o que não deve ser entendido de forma absoluta, mas que ali significa algo como "a cidade onde Deus habita". Da mesma forma, quando se diz "o estandarte de Iehová, meu Deus". De forma absoluta e fora de uma construção, Iehová é atribuído somente a Deus. Assim também, o termo Iehová é usado ou no caso reto ou no caso oblíquo; no caso reto, só é atribuído a Deus; no caso oblíquo, pode ser atribuído a criaturas, como "o monte de Iehová".

Além disso, a veracidade do cânone explicado é provada pelo fato de que o próprio Deus reivindica este nome para si: "Com o nome de Iehová, não fui conhecido por eles" (Êxodo 6:22). "Eu sou Iehová, teu Deus" (Êxodo 20:2). "Cujo nome é Iehová dos Exércitos" (Isaías 42:8). Daí Moisés e os israelitas cantarem: "Iehová é o seu nome" (Êxodo 15:3). Isso também fica evidente pela etimologia: o nome יהוה é derivado da raiz היה ou הוה, que significa ser ou existir. Portanto, יהוה designa propriamente a essência, ou o ser, não em sentido genérico, mas em um sentido específico de ser infinito, eterno, existindo por si mesmo, pois YHWH é ατς ν, ατίθεος, κα αἴτιος ἑαυτοῦ "aquele que é", "autoexistente", e "causa de si mesmo", como Scaligero menciona. Pedro Faber, em De Divinis Nominibus, também prova o mesmo: (1) Este nome é sempre único ε μοναδικόν, ou seja, sempre singular, nunca plural πληθυντικόν; (2) É um nome por si mesmo individual, portanto, nunca é encontrado com o ה enfático ou demonstrativo.

Objeção I dos adversários: Muitos textos testemunham que esse nome não é próprio de Deus, mas é atribuído também às criaturas, abundantemente na Escritura. Assim, a arca da aliança é chamada de Iehová, em Números 10:35; 32:20; Deuteronômio 12:7; Josué 24:1; 2 Samuel 6:2; Salmos 24:8. Resposta: Em geral: O culto divino estava ligado à arca. Pois o Senhor falava com Moisés na arca, conforme a promessa em Êxodo 25:22: "Ali virei a ti, e falarei contigo de cima do propiciatório, entre os dois querubins que estão sobre a arca do testemunho." Portanto, o Senhor aparecia na arca (Levítico 16:2): "Eu aparecerei sobre o propiciatório em uma nuvem." Ele estava sobre os querubins da arca da aliança (1 Samuel 4:4): "Levaram a arca da aliança do Senhor dos querubins." Também em 1 Crônicas 13:6; Salmos 80:20; Salmos 99:1; Isaías 37:16. Ele havia colocado ali a memória do Seu nome (Deuteronômio 12:4). Portanto, queria que todo o culto fosse realizado diante da arca (1 Reis 3:15). Além disso, também havia adoração, como se vê claramente em Josué 7:6 e em Ezequias (2 Reis 19:15). A razão evidente para isso é que, ao se voltarem para o Senhor e lhe prestarem culto, seja na posição do corpo ou em oração, as pessoas eram ditas voltar-se para a arca, não porque a arca fosse Iehová, mas porque Deus havia ligado Sua presença especial à arca e queria ser buscado e encontrado ali.

Em segundo lugar, em particular, respondo aos textos apresentados: (1) Em Números 10:35, Moisés, ao dizer "Levanta-te, Senhor, para que teus inimigos sejam dispersos", não estava se dirigindo à arca, mas ao verdadeiro Iehová, que tinha ali Sua sede, o que é interpretado por Davi em Salmos 132:7-8: "Levanta-te, Iehová, indo para o lugar de teu descanso, tu e a arca da tua força." (2) A oração é dirigida ao verdadeiro Deus, não à arca, pois fazê-lo seria idolatria. (3) A arca, propriamente, não se levanta nem se volta, algo que é atribuído a Deus por antropopatismo (νθρωποπάθειαν, linguagem humana), como em Salmos 78:2: "Levanta-se Deus, que seus inimigos sejam dispersos, e fujam os que o odeiam da sua presença." (4) Moisés orava assim quando a arca estava partindo ou descansando. Mas que sentido teria dizer "levanta-te" quando já estava partindo, ou "volta" quando estava descansando e retornando? Além disso, apenas Deus pode dispersar os inimigos, não a arca.

Em Números 32:30, é ordenado aos rubenitas, gaditas e à meia tribo de Manassés que avancem para a guerra "diante de Iehová", o que os adversários interpretam como "diante da arca". Resposta: (1) Não se lê em nenhum lugar que a arca tenha ido à guerra no tempo de Josué; portanto, não é de forma alguma certo de que essas palavras se refiram à arca. (2) Pelo contrário, é ensinado que Deus estava sempre presente na batalha, com promessas repetidas como: "Eu estarei contigo, eu os entregarei em tuas mãos." (3) Mesmo se (o que, no entanto, não está claro no texto) houvesse referência à arca, isso não significaria que a arca fosse chamada de Iehová, mas que o único e verdadeiro Deus estava presente de modo singular junto à arca.

Em Deuteronômio 12, é ordenado que as ofertas sejam comidas "diante do Senhor", o que os adversários interpretam como "diante da arca". Resposta: "Diante do Senhor" não significa exclusivamente diante da arca da aliança. Se o lugar for considerado, o tabernáculo ou o templo era o local onde as ofertas eram comidas, enquanto a arca estava na parte interior do tabernáculo. Portanto, aqueles que comiam as ofertas na parte exterior do templo ou tabernáculo eram ditos comer "diante do Senhor". (2) Esse Iehová mencionado nesse mandamento refere-se àquele que concedia as bênçãos dos frutos ao povo, como mostram as palavras conexas. Não era a arca que concedia as bênçãos dos frutos, mas apenas Deus. (3) Deve-se mostrar uma razão evidente para que as palavras de Moisés se refiram à arca da aliança e não ao verdadeiro Deus.

Em Josué 24:1 — Josué, com os anciãos de Israel, estava reunido diante do Senhor. Isso é explicado pelos adversários como "diante da arca da aliança". Resposta: Deve ser provado que as palavras "diante do Senhor" suportam essa interpretação, pois não há motivo aparente para isso. (2) O fato de Iehová não se referir à arca é claramente provado pelo trecho citado. Josué realizava a assembleia em Siquém, cidade localizada nas montanhas de Efraim (Josué 20:7). Não se lê em nenhum lugar que a arca tenha sido transportada para lá; e, na verdade, não havia dúvida de que a arca não estava ali, mas em Siló, onde o tabernáculo havia sido erguido recentemente (Josué 18:1). Somente no tempo de Eli é que se lê que a arca foi removida de lá (1 Samuel 4:4, 5). Portanto, "diante do Senhor" nada mais significa do que se reunir no verdadeiro temor de Deus e, como se estivesse na presença d'Ele, se reunir em verdadeira piedade.

Em 2 Samuel 6:2 — Davi se levantou, e todo o povo, para fazer subir a arca de Deus, sobre a qual foi invocado o nome de Iehová dos Exércitos. Resposta: Invocar o nome de alguém sobre outro é atribuir o nome daquele a este, mas não por atribuição direta, e sim por atribuição indireta. Chamo de direta aquela que é feita pelo caso reto, como se disséssemos "a arca é Iehová"; e de indireta, a que é feita pelo caso oblíquo, como "arca de Iehová", "arca da aliança de Iehová". Não há controvérsia entre nós sobre a atribuição indireta, pois quem não sabe que o templo, a cidade, o altar, o povo são frequentemente chamados de Iehová? Portanto, quando a atribuição direta está em questão, a pergunta é: A arca da aliança não só é chamada "de Iehová", mas também Iehová? A resposta é simples: a expressão "invocar o nome sobre alguém" sempre implica atribuição indireta. "O nome de Iehová foi invocado sobre os filhos de Israel, sobre Jerusalém" (Daniel 9:18-19), "sobre o templo" (1 Reis 8:43; 2 Crônicas 20:9), mas nem Israel, nem Jerusalém, nem o templo são chamados de Iehová, mas sim de "povo de Iehová" ou "cidade do Senhor". De modo semelhante, o nome de Jacó ou Israel deveria ser invocado sobre Efraim e Manassés, não para que fossem diretamente chamados de Jacó ou Israel, mas de maneira indireta, como "filhos de Jacó" ou "tribo de Israel" (Gênesis 48:16). Portanto, "o nome do Senhor foi invocado sobre a arca da aliança" apenas por meio de expressões indiretas, como "arca do Senhor" ou "arca da aliança de Iehová". Sobre esse modo de atribuição, não há disputa entre nós.

Primeiro, no Salmo 24, a arca da aliança não é chamada "Deus da glória" ou "Senhor poderoso na batalha" sem cometer impiedade. Pois ambos os atributos são próprios apenas do Deus vivo, sendo completamente alheios à arca da aliança. II. Que entrada da arca é essa, e que elevação das portas é pregada? Na verdade, essa profecia refere-se a Cristo, cuja vinda era aguardada com grande desejo, não apenas entre os judeus, mas também celebrada entre as nações. Daí que as portas do mundo sejam ordenadas a se levantar para receber dignamente esse Rei. E essa profecia de Davi é do mesmo teor do discurso de João, o precursor do Senhor (Isaías 40:3-4).

Assim, demonstramos que a arca não é chamada de Iehová em caso reto nas Escrituras. Os adversários continuam tentando provar que o nome de Iehová se aplica também aos juízes e sacerdotes de Israel, citando Deuteronômio 19:17: "E ambos os homens, entre os quais houver contenda, se apresentarão perante Iehová, perante os sacerdotes e os juízes que houver naqueles dias." Resposta: (1) São nomeados distintamente: 1. Iehová; 2. Sacerdotes; 3. Juízes. Portanto, é certo que o nome de Iehová não é atribuído aos juízes. Da mesma forma, assim como os juízes e os sacerdotes são nomeados distintamente, segue-se infalivelmente que o nome de "sacerdote" não se aplica aos juízes; assim também, porque o nome de Iehová é distinto do sacerdote e do juiz, é certo que esse nome não se aplica a eles. (2) Onde está escrito que sacerdotes e juízes são Iehová? Acaso os adversários pensam que Deus não está presente no julgamento, de modo que é necessário atribuir Seu nome a outros ali presentes? Pois se acreditam nisso, por que atribuem Seu nome a homens? Se negam, deixem-se instruir pelo Salmo 82:1 e por Josafá em 2 Crônicas 19:6.

Os adversários prosseguem dizendo que o nome de Iehová é atribuído ao anjo e mencionam Êxodo 3:3-4, onde é descrita a aparição de Iehová a Moisés em Midiã, e o testemunho de Estêvão, que afirma que um anjo apareceu a Moisés (Atos 7:3). De onde concluem, dizem eles, que o anjo é chamado de Iehová. Resposta: (1) Lembrem-se os adversários de que, quando usamos esse método de argumentação para provar que Cristo é Iehová com base na comparação de diferentes textos, eles o combatem vigorosamente. Portanto, consultem sua própria consciência se querem permitir-nos usar esse método como legítimo ou se desejam condená-lo em si mesmos, assim como o fazem em relação a nós. (2) A consequência é negada, pois é mais correto inferir dessa comparação que Iehová é chamado de anjo, uma vez que o nome é atribuído claramente a ele em Gênesis 32:29-30 e 48:16, do que concluir que um anjo criado seja chamado de Iehová. Isso é demonstrado pelos atributos que são atribuídos a esse anjo, que de modo algum podem se aplicar a uma criatura: (3) Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êxodo 3:6); (4) Ele traz o povo do Egito (v. 8); (5) Dá a terra de Canaã (v. 8); (6) Envia Moisés ao faraó (v. 10).

Todas essas coisas, não podendo se aplicar a nenhuma criatura, e, portanto, nem mesmo a um anjo, tornam necessário que aquele seja chamado de o Deus supremo e único, o verdadeiro Iehová, sendo referido como anjo; mas não vice-versa, ou seja, um anjo ser chamado de Iehová por Moisés.

Êxodo 19:11 menciona que Iehová desceu sobre o monte Sinai para promulgar a lei aos israelitas. No entanto, Estêvão afirma que foi um anjo que fez isso (Atos 7:38). Daí vem a mesma conclusão. Resposta: Como a razão deste trecho é praticamente a mesma do anterior, a mesma resposta deve ser aplicada aqui em termos gerais, a saber, que este anjo é incriado. Pois Iehová falou, conforme dito por Moisés, e esse Iehová foi aquele que: (1) Deu a lei (Êxodo 20:2 e seguintes); (2) Tirou os israelitas do Egito (Êxodo 20); (3) Visita a iniquidade dos pais nos filhos (v. 5). Este não é um anjo criado. Portanto, Iehová é designado pelo nome de "anjo".

E esses foram os textos em que se queria atribuir o nome de Iehová, de forma pura e sem composição, às criaturas. Agora são apresentados textos que mencionam o nome de Iehová em uma construção, ou, se preferir, em uma composição, referentes a criaturas, como "Iehová Shammah", "Iehová Nissi", " Iehová Shalom", "Iehová Jireh" e outros que ocorrem nas Escrituras. Resposta: É bem conhecido por todos que nomes próprios que entram em composição degeneram completamente para significados diferentes; portanto, esses nomes mencionados, e outros do mesmo gênero, são nomes de criaturas e de modo algum de Deus. Isso é confirmado porque esses nomes compostos (enquanto são próprios) não são atribuídos a Deus reciprocamente. Pois Deus nunca é chamado por um nome como "Iehová ali", e tal atribuição recíproca seria necessária se o nome de Iehová fosse aplicável igualmente a Deus e às criaturas. (2) Porque, para o mesmo sujeito, o nome próprio dele e "Iehová " não são usados indistintamente. Assim, a cidade de Jerusalém nunca é chamada indistintamente de Jerusalém e Iehová, embora possa ser chamada de "Iehová ali". Daí fica claro que "Iehová " e "Iehová ali" não são o mesmo nome.

II. A palavra κύριος é, às vezes, um nome próprio, às vezes, um nome comum.

Socino acredita que apenas a palavra Iehová seja um nome próprio, enquanto κύριος seria um apelativo (um nome comum), conforme escreveu em seu livro contra Wuieek, capítulo 6. Nós afirmamos que ambas as palavras são nomes próprios. (1) Porque são atribuídas, em seu sentido estrito, ao único Deus: Deuteronômio 6, Marcos 12:29, 1 Coríntios 8:6, Efésios 4:5-6. (2) Somente Deus é "o único Senhor dos senhores" [μόνος κύριος τῶν κυριευόντων] (1 Timóteo 6:15). (3) Sempre que os nomes "Deus" e "Senhor" são usados reciprocamente de forma absoluta, o único Deus verdadeiro é o verdadeiro Senhor, e vice-versa.

No entanto, deve-se manter aqui a distinção entre o vocábulo Iehová, que significa essência, e a palavra "Senhor", que parece denotar uma propriedade. Pois os nomes próprios podem ser pronomes ou cognomes. Iehová é um pronome, enquanto "Senhor" é um cognome. Portanto, basta que o primeiro indique a essência de forma simples, embora o segundo insinue a propriedade do Senhor. A palavra "Senhor" é usada para denotar o verdadeiro Deus quando se junta com as palavras "Senhor" ou "Deus", como quando Cristo diz em Mateus 4:7: "Não tentarás o Senhor teu Deus [κύριον τν θεόν]." Exemplos semelhantes são encontrados em Gênesis 15:2, Isaías 51:22, Marcos 12:29, João 20:28 e Apocalipse 4:8. Ou quando certas características o indicam. Essas características que mostram o significado primário da palavra no predicado podem ser nominais, quando a palavra "Senhor" é usada de forma absoluta e sem determinação (Mateus 7:21-22) e quando a palavra é repetida, como em "o Senhor dos senhores" (1 Timóteo 6:15). Ou podem ser reais; e estas são idiomáticas, como "Senhor grande" (Salmo 135:5), energéticas, como "Senhor, tu criaste todas as coisas" (Apocalipse 4:11), ou de adoração, como quando se diz "Digno és, Senhor, de receber glória" (ibid.).

III. A palavra Deus significa essência e natureza, e não ofício, dignidade ou poder.

Os argumentos para isso são os seguintes: (1) Um nome cuja etimologia certa não pode ser demonstrada, indica essência e não poder. A razão é que todas as palavras que denotam dignidade e ofício são derivadas de outras, como "rei" de "reger" e "senhor" de "dominar". Mas a etimologia da palavra "Deus" não pode ser demonstrada com certeza; todas as explicações que se dão são alusivas, e não genuínas. (2) Se a palavra "Deus" fosse um nome de ofício ou dignidade, seria paronímica, porque concretos sinônimos designam substância e natureza, enquanto paronímicos designam ofício e qualidade. Mas o nome "Deus" é um concreto sinônimo, e não paronímico, porque tem um abstrato correspondente: "divindade" é o abstrato sinônimo de "Deus". Portanto, assim como o abstrato indica essência, o mesmo ocorre com o concreto. (3) Designações baseadas em ofício e dignidade não são aplicadas diretamente à substância, mas indiretamente, enquanto há outro nome substancial que a substância já possui essencialmente. No entanto, este não é o caso com a palavra "Deus", que é um nome essencial. (4) Se o nome "Deus" fosse um nome de ofício e não de essência, seguir-se-ia que ele seria aplicável à Divindade suprema apenas em relação às criaturas. Mas é certo que ele se aplica a Deus de forma absoluta, pois Deus foi Deus antes de todas as criaturas existirem. (5) Porque o nosso Deus essencial é oposto a "deuses" assim chamados, como em 1 Coríntios 8:5-6, e é separado deles com o epíteto de "verdadeiro Deus" em João 17:3. Por essa razão, os gálatas foram repreendidos por, enquanto ainda gentios, terem adorado aqueles "que por natureza não eram deuses" (Gálatas 4:8). Tudo isso deve ser entendido no sentido próprio e nativo da palavra, pois é evidente que o vocábulo "Deus" é usado impropriamente no vulgo para aqueles que são assim apenas por ofício. (6) Se a palavra "Deus" não significasse natureza, mas apenas poder, como alegam os socinianos, então a proposição "Deus é rei" e "Deus é juiz" seria idêntica quanto ao sujeito e predicado. Isso significa que dizer "Deus é rei" seria o mesmo que dizer "rei é rei" ou "juiz é juiz".

IV. A palavra Deus, quando se refere ao próprio Deus, é um nome próprio, não apelativo ou comum.

E isso por meio dos seguintes argumentos: (1) Se o nome "Deus" não fosse próprio, Deus não seria absolutamente único; pois um nome comum é aquele que se aplica a muitos, enquanto um nome próprio é aquele que se aplica somente a um. É necessário que o nome seja próprio de uma única coisa. Portanto, como a Escritura ensina sempre que Deus é único, segue-se que o nome "Deus" é um nome próprio. (2) Podemos confirmar o mesmo de outra forma: quando um nome se aplica essencialmente a um ser e a outros apenas em razão de uma relação com esse ser, esse nome deve ser considerado próprio do primeiro. Assim ocorre aqui: o nome "Deus" compete essencialmente ao Deus verdadeiro, e não por relação a outra coisa; aos outros, não lhes compete, a não ser em relação ao único Deus verdadeiro. Por essa razão, alguns são chamados "deuses", porque participam de certas propriedades e semelhanças de Deus. Portanto, é necessário que o nome "Deus", propriamente e em sua significação essencial, pertença apenas ao único Deus, que é Deus em si mesmo; aos outros, pertence apenas por participação e secundariamente, porque participam de alguma perfeição divina. Assim como não são deuses em si mesmos, mas por participação, também o nome "Deus" não lhes convém primariamente, mas secundariamente, e quase por derivação, vindicando-o de alguma forma do único Deus verdadeiro. (3) Por fim, como o nome "Deus" deve significar a natureza divina ou a semelhança e participação da divindade, não se pode dizer que signifique ambos da mesma forma. Em vez disso, ele significa a natureza divina primariamente e a semelhança divina secundariamente. Assim como o nome "homem" significa primariamente a natureza do homem e depois a sua semelhança; primeiro vem a própria coisa, depois a sua semelhança. Assim como a semelhança deriva da coisa, também a denominação. Primeiro, o nome convém à própria coisa, depois à derivação de sua semelhança. Disso se depreende que o nome "Deus", em seu primeiro e próprio significado, denota a natureza divina; em seu significado secundário, é também atribuído a outros deuses, que são chamados "deuses" por semelhança e participação. Nesse sentido posterior, a palavra Deus é usada metaforicamente para os anjos e magistrados (Salmo 82) e abusivamente e por catacrese para o diabo e o ventre (Filipenses 3:19).

V. A palavra Deus, usada em relação ao verdadeiro Deus, é entendida de duas formas: ou essencialmente οσιοδς ou pessoalmente ποστατικς, isto é, essencialmente ou por meio das pessoas.

Essencialmente, refere-se à própria essência de Deus; pessoalmente, refere-se às pessoas da Trindade. Há duas observações a serem feitas sobre essa distinção: 1. Como não se segue que haja três Deuses quando a palavra "Deus" é usada pessoalmente. 2. Se a palavra "Pai" também deve ser distinguida da mesma maneira, ou seja, se deve ser entendida essencialmente para a essência de Deus ou pessoalmente para a primeira pessoa da Trindade. Quanto ao primeiro ponto, deve-se entender que a pessoa é tomada de forma abstrata ou concreta. Quando falamos concretamente e dizemos que a palavra "Deus" é entendida pessoalmente (ποστατικς), não estamos entendendo a personalidade de forma abstrata, mas concretamente, como a personalidade unida à essência. Portanto, uma vez que há apenas uma essência, que, ao ser assumida juntamente com esta ou aquela maneira de subsistir, constitui uma pessoa, segue-se que não se pode dizer que há três Deuses hipostáticos, pois essas três maneiras de subsistir têm apenas uma única essência. Quanto ao termo "Pai", ele é entendido da mesma forma, ou seja, essencialmente ou pessoalmente. É usado essencialmente na Oração do Senhor, quando dizemos "Pai nosso"; e pessoalmente no Credo Apostólico, quando dizemos "Creio em Deus Pai".

Artigos e textos

WESTMINSTER: A QUESTÃO DO PRESBITÉRIO FORMULADA (Parte 1)